sobre cultura

quinta-feira, junho 10, 2004

Espia da Terra

O dia fecha de novo os seus olhos
E a noite como norma aparece
A lua, lá no alto, intimida-se,
Escondendo a sua outra face.

Torna-se uma espia da terra
Que observa os actores do drama
Alheios a tudo.

O mundo evolui
E a lua esconde-se
Para não presenciar o seu fim.

segunda-feira, junho 07, 2004

Da vida ao momento de transição

Mass and Empathy reafirma o carácter humanista da obra de Antony Gormley, um dos mais importantes nomes da escultura britânica contemporânea. Critical Mass e Domain Field são dois trabalhos, realizados em tempos e com propósitos diferentes, mas que no seu conjunto estimulam sensações e reflexões sobre o humano, nomeadamente a vida em sociedade e os conflitos daí resultantes e, por outro lado, a consciência da morte e do desconhecido.
Ao percorrer a exposição, o espectador é integrado na obra, dando-lhe outra dimensão ou visibilidade. Este impacto faz dele, não um mero observador, mas um participante activo na interpretação subjectiva da obra apresentada. A forma como as peças estão dispostas no espaço ganha um significado globalizante, na medida em que cria um ambiente próprio, que serve o objectivo do artista de criar um todo através das partes.
A composição das formas que protagonizam as duas instalações e a disposição destas num espaço contextualizado, permite uma ligação intrínseca, mas de certa forma contrastante entre os dois ambientes criados.
Os seres metálicos que habitam Domain Field ganharam forma a partir de corpos reais. Uma multidão, da qual fazem parte elementos com configurações físicas distintas, decorrentes de níveis etários, géneros e estaturas diversificadas. Cada corpo resulta de uma fusão de fragmentos, que aludem a uma estrutura ou montagem, proporcionando a transparência.



Apesar da ilusão de convívio e proximidade, simulada pela transparência das formas, estes seres aparecem isolados na forma como se organizam no espaço. Este facto conota a presença do individual inserido no colectivo. Uma recriação do espaço público e da dinâmica da multidão, que alastra e transborda para o exterior da galeria de exposições da Fundação Calouste Gulbenkian.
Domain Field não é apenas uma exposição de corpos transparentes. Importa referir a importância das características do espaço para a recepção da obra. Ao nível térreo, um corredor envidraçado permite a relação interior/exterior, tornando-se ele próprio num espaço transparente, que aproveita a luz natural e fria para criar um ambiente puro, de tranquilidade.
A leveza de Domain Field dissipa-se quando nos dirigimos para Critical Mass, situada uns andares mais a baixo. Um sítio não convencional, que até então tem servido para o armazenamento de material.
A recorrência a um espaço alternativo para exposição de Critical Mass funcionou como uma adequação conceptual. As formas de chumbo, densas e impenetráveis, conjuntamente com a obscuridade do lugar, produzem um desconforto e intimidação face ao desconhecido.



Apesar da repetição das formas, moldadas no corpo do próprio artista, as várias posições que assumem no espaço, alteram esta condição. Posições tensas, desde a suspensão de corpos à má queda, transmitem a ideia de caos. Um ambiente de tortura, conjugado com a reacção a uma explosão, em que os corpos caem dispersos ou amontoados.
Mass and Empathy faz ressaltar dicotomias e questões com as quais o ser humano se debate quotidianamente: da tranquilidade da vida à agonia do momento de transição.

Espelho meu, espelho meu

Quando comprei a minha casa, a minha primeira aquisição foi um espelho. Queria que à medida que ficasse mobilada, se fosse compondo uma nova imagem. A intenção seria que o reflexo me ajudasse a tomar decisões relativamente à configuração ou disposição de objectos. O que eu não conseguiria ver era se o espelho estaria colocado no sítio certo.
Mas a minha casa já vinha com um espelho de oferta, talvez porque se sabia ser necessário. Afinal, qual a casa de banho que não obriga a veres-te ao espelho?
Apesar do nome ser igual, os espelhos servem objectivos diferentes. Para além dos espelhos de estética e profundidade, colocados na parede da sala ou do hall de entrada, existem os espelhos pessoais, que servem o fascínio pelo corpo idealizado.
Na minha e, penso que, em todas as casas, o uso dos espelhos é feito de uma forma interligada. Na casa de banho, o espelho geral e o de pormenor e no quarto, o espelho de corpo inteiro, que interfere na árdua tarefa feminina de escolher o que vestir. No entanto, parece que o espelho de entrada não tem apenas uma função decorativa, é simultaneamente um espelho de saída. E já com a porta aberta e o elevador a chegar, lanço, como sempre, um último olhar. Mas para não me desleixar, levo sempre comigo o espelho de retoques para algum azar.
Entro no carro para ir trabalhar, e logo me deparo com o carro de trás. O espelho retrovisor é o espelho do condutor, mas se for acompanhada ainda há o espelho das atrasadas, que com o carro em andamento se esborratam com pinturas.
O espelho é um objecto de uso frequente, assumindo um papel decorativo ou de orientação visual, numa perspectiva de comportamento ou de beleza exterior. Contudo, existe um espelho que não é espelho, que assina uma ruptura com a sua utilidade ou função – reflectir.




Há uns meses, quando visitei a exposição Corpus na Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém, deparei com uma tela de formato alternativo, mas não totalmente desconhecido. O que provocou em mim uma sensação de estranheza foi a fuga ao modelo standard da pintura: o Mirror de Roy Lichtenstein materializava o conceito clássico de espelho.
Apesar do formato estabelecer uma relação de semelhança com o objecto real, nunca uma tela poderia reflectir. Eu não me vi a mim. Vi um espelho pintado, que tal como uma fotografia, captava um momento e, por isso, assumia uma configuração fixa.
A realidade pode servir de inspiração à obra artística, mas esta nunca será capaz de substitui-la. Imaginei, naquele momento, como seria se colocasse no lugar do espelho do meu quarto a obra de Lichtenstein. Apesar daquela tela oval ter uma dimensão aproximada da do meu espelho, não era para ser usado, mas sim para ser olhado. Afinal, qual será o sentido de um espelho que não reflecte? Ao recordar o meu dia-a-dia apercebi-me que o meu quarto seria o lugar errado, pois o que me fazia falta era ver-me do outro lado.








 
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