Quando comprei a minha casa, a minha primeira aquisição foi um espelho. Queria que à medida que ficasse mobilada, se fosse compondo uma nova imagem. A intenção seria que o reflexo me ajudasse a tomar decisões relativamente à configuração ou disposição de objectos. O que eu não conseguiria ver era se o espelho estaria colocado no sítio certo.
Mas a minha casa já vinha com um espelho de oferta, talvez porque se sabia ser necessário. Afinal, qual a casa de banho que não obriga a veres-te ao espelho?
Apesar do nome ser igual, os espelhos servem objectivos diferentes. Para além dos espelhos de estética e profundidade, colocados na parede da sala ou do hall de entrada, existem os espelhos pessoais, que servem o fascínio pelo corpo idealizado.
Na minha e, penso que, em todas as casas, o uso dos espelhos é feito de uma forma interligada. Na casa de banho, o espelho geral e o de pormenor e no quarto, o espelho de corpo inteiro, que interfere na árdua tarefa feminina de escolher o que vestir. No entanto, parece que o espelho de entrada não tem apenas uma função decorativa, é simultaneamente um espelho de saída. E já com a porta aberta e o elevador a chegar, lanço, como sempre, um último olhar. Mas para não me desleixar, levo sempre comigo o espelho de retoques para algum azar.
Entro no carro para ir trabalhar, e logo me deparo com o carro de trás. O espelho retrovisor é o espelho do condutor, mas se for acompanhada ainda há o espelho das atrasadas, que com o carro em andamento se esborratam com pinturas.
O espelho é um objecto de uso frequente, assumindo um papel decorativo ou de orientação visual, numa perspectiva de comportamento ou de beleza exterior. Contudo, existe um espelho que não é espelho, que assina uma ruptura com a sua utilidade ou função – reflectir.
Há uns meses, quando visitei a exposição Corpus na Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém, deparei com uma tela de formato alternativo, mas não totalmente desconhecido. O que provocou em mim uma sensação de estranheza foi a fuga ao modelo standard da pintura: o Mirror de Roy Lichtenstein materializava o conceito clássico de espelho.
Apesar do formato estabelecer uma relação de semelhança com o objecto real, nunca uma tela poderia reflectir. Eu não me vi a mim. Vi um espelho pintado, que tal como uma fotografia, captava um momento e, por isso, assumia uma configuração fixa.
A realidade pode servir de inspiração à obra artística, mas esta nunca será capaz de substitui-la. Imaginei, naquele momento, como seria se colocasse no lugar do espelho do meu quarto a obra de Lichtenstein. Apesar daquela tela oval ter uma dimensão aproximada da do meu espelho, não era para ser usado, mas sim para ser olhado. Afinal, qual será o sentido de um espelho que não reflecte? Ao recordar o meu dia-a-dia apercebi-me que o meu quarto seria o lugar errado, pois o que me fazia falta era ver-me do outro lado.